“Era um sonho podermos comercializar todas as carnes DOP juntas”

“Era um sonho podermos comercializar todas as carnes DOP juntas”

Carla Alves é a coordenadora da Feira do Fumeiro e Secretária Técnica da Associação Nacional de Criadores de Suinos de raça Bísara, a ANCSUB. Defende a necessidade de maior união entre os produtores transmontanos, de forma a facilitar o acesso aos mercados dos grandes centros dos produtos de qualidade da região, sobretudo das carnes com Denominação de Origem Protegida

Mensageiro de Bragança: Que novos desafios enfrentam os produtores de raça bísara, com as constantes alterações na legislação, cada vez mais apertada?

Carla Alves: O primeiro desafio foi o da produção pecuária. Tem um regime legal um pouco apertado, que obriga a que todos os produtores estejam licenciados e que tenham uma marca de produção suinícola. Sem essa marca não podem comercializar pois não podem emitir guias de transporte para abate ou de transporte em vida. A primeira coisa foi conseguirmos que os produtores licenciassem a sua atividade. Temos, neste momento, 185 produtores licenciados no concelho de Vinhais. Mas há outros desafios. Por exemplo, o caso do abate dos seus animais, que tem de ser feito em matadouro licenciado. O facto de termos um em Vinhais é uma grande ajuda. Mas também são necessários transportes licenciados, que o condutor tenha um curso de regras de bem estar no transporte, ou seja, regras que é sempre necessário ultrapassar. Mesmo durante a produção há regras apertadas. A atividade suinícola tem implementado um programa de luta contra a doença de Algeski, que obriga a uma vacinação permanente do efetivo, feita de três em três meses, e isso tem o seu custo. Mas é necessário fazer também a desparasitação e trabalharem num plano de melhoramento e conservação da raça. E há ainda a obrigatoriedade que a alimentação deste porco não seja à base do concentrado comercial. Têm de utilizar também produtos da agricultura, sobretudo na fase da engorda.

Também há muita castanha de refugo, que é usada na alimentação do porco, mais do que antigamente.

Há um trabalho permanente. Ter uma exploração suinícola licenciada e ser uma raça autóctone, que obriga ao cumprimento do livro genealógico, obriga a um trabalho intenso ao longo do ano. Mas nota-se um renovado interesse por esta raça. Começámos a associação em 1995mas é das raças que tem contrariado a evolução. Na sua maioria tem havido uma diminuição do seu efetivo. O bísaro tem contrariado isso. Apanhámos a raça à beira da extinção e estamos, atualmente, com umas três mil porcas.

MB.: E tem sido alargada a área de abrangência?

CA.: Exatamente. Historicamente, esta raça vivia a norte do rio Tejo. Mas em 1994, só encontrámos porcos de raça bísara nalgumas aldeias de Vinhais, Bragança, Montalegre, Cabeceiras de Basto, aldeias muito escondidas. As pessoas tinham deixado aqueles porcos por serem os melhores para eles comerem. Não têm uma rentabilidade de carcaça tão grande. Mas é a melhor carne para consumir. Não basta pedir ao produtor que volte a trabalhar com porco bísaro, quando já trabalha com porco industrial. É uma raça que tem alguns inconvenientes, pois cresce mais devagar, deposita mais gordura, tem um rendimento inferior e é menos resistente. Quando uma associação quer dizer aos produtores para produzirem, tem de lhes dar qualquer coisa em troca. Foi aí que, há alguns anos a esta parte, se conseguiu que a UE visse nestes produtos uma especificidade e que os pudesse diferenciar. Foi o que conseguimos. Provámos que os enchidos de Vinhais eram diferentes e que mereciam ser protegidos. Deram-nos, então, o uso de sete marcas para o fumeiro de Vinhais, a Indicação Geográfica Protegida (IGP). É uma proteção não do nome mas de um modo de fazer e de uma história associada a um produto. Foi por aí que conseguimos que os nossos produtores começassem a usar o porco bísaro. Tem sido este o percurso.

MB.: Qual a importância das certificações de origem?

CA.: Havia produtores, por exemplo, na zona do Planalto Mirandês, ou no Minho, ou noutras áreas de Trás-os-Montes, que não produzem fumeiro de Vinhais. Conseguimos também uma proteção da carne, para que o produtor não estivesse limitado a vender para fumeiro. Conseguimos uma DOP (Denominação de Origem Protegida). A única diferença é que na IGP a área geográfica da produção não é exatamente igual à da transformação. O porco pode ser criado em Miranda do Douro e fazer fumeiro em Vinhais. No caso da DOP, a área onde posso criar o porco, abatê-lo e certificá-lo tem de ser a mesma. Com isto conseguimos mais um mecanismo para oferecer aos produtores, que puderam avançar para outro tipo de produção, como o leitão ou as carcaças até 120 quilos para desmancha. A zona do Planalto Mirandês virou-se para a produção de leitão, que tem tido uma ótima aceitação, mesmo na Beira Litoral. O nosso maior produtor está na zona da Bairrada. Tem sido uma aposta de alguns restaurantes.

MB.: Como tem sido o interesse dos produtores?

CA.: Temos uma aceitação crescente desta raça autóctone, que estimo que vá aumentar. Tenho tido imensos contactos de gente que quer produzir e fazer projetos. Tínhamos 135 em 2011, 185 em 2012 e espero mais umas 50 explorações agora em 2013. Mas estamos a falar de explorações com maior encabeçamento. Quem mete um projetos destes tem de justificar uma sustentabilidade, o que implica pelo menos 20 porcas produtoras. Há gente no Planalto com 80 e cem porcas. O maior produtor tem cerca de 300.

MB.: Como será o futuro?

CA.: Temos, neste momento, de trabalhar melhor a carne DOP. Temos estado em conversações com os colegas da raça Mirandesa, da ANCRAS (cabrito), do Cordeiro Mirandês, tudo o que são carnes DOP de Trás-os-Montes. Faz falta uma união. Chegarmos ao mercado com a carne é complicado. É mais fácil com os enchidos, que são um alimento transformado e um prazo de validade mais alargado. Comercializar a carne em Lisboa ou no Porto tem custos elevados, de transporte, abate. Nem a Mirandesa é suficientemente grande para ir sozinha a Lisboa, nem nós. A ideia que estamos a estudar é um casamento entre as carnes DOP. Um sonho para mim era começarmos a comercializá-las juntas. Já tivemos três reuniões nesse sentido.

MB.: Que ajudas têm tido os produtores?

CA.: De ano para ano, os custos de produção são mais elevados, desde o preço dos cereais aos sanitários. O que temos feito é a própria associação, que tem médico veterinário, ajudar a implementar o plano de erradicação da doença de Algeski, por exemplo. O problema é que eles são muitos, a área geográfica é grande e não conseguimos chegar a todos. É sempre cada vez mais uma exigência, mais uma burocracia.  Tudo isso são dificuldades e não se reflete no custo do produto. O preço do fumeiro é o mesmo desde 1993 e agora são os produtores que vão suportar o aumento do preço do IVA para 23 por cento.

 

Fonte: Mensageiro de Bragança | António G. Rodrigues | 31 de janeiro de 2013

Partilhar:
Facebook Twitter Linkedin Digg Delicious Reddit Stumbleupon Email

Comentários

comments